Serei um veleiro só, esperando ansioso no silêncio de um cais.
As pequenas ondas de mar salgado hão de me causar grande vertigem.
E na nebulosa imagem dos meus sonhos ainda serei só, mas só seguirei viagem se amor em mim ainda houver.
Saudades.
Praia da Barra - Salvador, BA
Corpos robustos cercados por uma pele lisa e intensamente negra enchem suas areias brancas. Vejo contrastes por todos os lados.
Passa uma ambulante - ela vende saídas, é negra, bem negra - peço para ver uma canga, invento essa aproximação, quero tocar a pele da moça. Me levando para, supostamente, ver e sentir os tecidos e as estampas, mas o tecido que me interessa ali é sua epiderme - tão robusta quanto ela.
Entre uma pergunta e outra rimos por um comentário divertido, percebo minha chance, aproximo rapidamente minha mão, meus dedos e, finalmente, toco seu braço como que para completar o riso. Sinto sua força e delicadeza na pele mais macia que já toquei. Inesquecível!
Driblo suas ofertas, invento não gostar de estampas e cores, ela vai embora. Eu já conquistei o que queria: a sensação, o toque, o momento.
Fico ali tocando meus próprios dedos, sentindo minha estratégia egoísta de aproximação e dispensa.
Olho seus corpos negros. Quando deitam na areia, levantam de outra cor.
Eu sou da cor da areia, não posso ser camaleão.
Passa uma ambulante - ela vende saídas, é negra, bem negra - peço para ver uma canga, invento essa aproximação, quero tocar a pele da moça. Me levando para, supostamente, ver e sentir os tecidos e as estampas, mas o tecido que me interessa ali é sua epiderme - tão robusta quanto ela.
Entre uma pergunta e outra rimos por um comentário divertido, percebo minha chance, aproximo rapidamente minha mão, meus dedos e, finalmente, toco seu braço como que para completar o riso. Sinto sua força e delicadeza na pele mais macia que já toquei. Inesquecível!
Driblo suas ofertas, invento não gostar de estampas e cores, ela vai embora. Eu já conquistei o que queria: a sensação, o toque, o momento.
Fico ali tocando meus próprios dedos, sentindo minha estratégia egoísta de aproximação e dispensa.
Olho seus corpos negros. Quando deitam na areia, levantam de outra cor.
Eu sou da cor da areia, não posso ser camaleão.
Mexico, 2007 - se encaixa perfeitamente no agora...
Se soubesse contá-los, quantos seriam?
A cada pessoa que vejo, um mundo, a cada tempero que provo, um outro, e a cada passo que dou, saio de um, mergulho num novo.
Cada cheiro, cada cor, cada som.
Meus sentidos se apaixonam segundo a segundo e mudo de mundo, sempre por amor.
Tudo que me leva de um mundo a outro é tão frágil, tão dolorido, tão forte e tão sem dor.
O que me transporta, minha ponte de açúcar e papel é a saudade e, numa chuva de lágrimas, se não me cuidar, perco a ponte e me afogo num mundo em que ninguém sabe chegar..
Salvador, BA - 08/fev
Penso em como são bonitas as mulheres daqui. As negras, mulatas e quase brancas, com seus rostos imponentes, sua típica ação cheia de atitude. Intimidadoras, mas cheias de simparia. Que dualidade instigante, contradizente!
Como são belas subindo e descendo as ladeiras em estampas multicoloridas.
Frente a seus cabelos - crespos assumidos, mas muitas vezes bem penteados, trançados, ousados, liso perde completamente a graça. Perto delas sou sem charme, feia, branca aguada. No mundo beleza é o que não falta!
Sinto nas ruas o calor que emana também das pessoas.
Estou mais lenta, penso as vezes com sotaque, ainda me perco pelas ruas e não sei identificar local ou pessoa perigosa.
Sou de longe, não entendo as palavras, a rapidez das frases e o ritmo do povo. Não entendo, mas gosto!
Sou uma pequena aprendiz dessa cidade que, como suas mulheres, vive se contradizendo.
Caos e tranquilidade convivem em meio ao cimento e o mar.
Negras parrudas caminham pela caótica e surpreendentemente tranquila Salvador.
Ps.: mar e saudade são amantes.
Gaua está cercada de água, como eu.
tem dentro dela um vulcão enlouquecido, que bufa com razão. Como eu.
Se o vulcão resolver botar pra fora, Gaua morre. Se parar, Gaua também morre.
O povo vive do calor do vulcão de Gaua.
Como eu, Gaua espera que o vulcão não enfureça, mas sabe que sem ele nada é.
Sou como Gaua.
Buscamos dia-a-dia agradar o vulcão e viver por ele para que nem eu, nem Gaua viremos cinzas e fumaça.
rabisco e apago.
essa brincadeira me toma horas...
tenho a vontade de correr, de voltar, de chegar até o final.
onde encontro o final desse rabisco?
apago.
onde vai morar a coragem quando a noite chega?
a noite, a coragem, o espelho, o caminho..
um monte de rabiscos que se juntam na mesma folha branca - que de rabisco em rabisco branca já não é.
quando a borracha e a mão firme descombinam, a folha se machuca e a cicatriz fica fazendo parte do que antes era só branco.
das coisas que eu sempre mais gostei a que eu me lembro mais é a cicatriz.
amo a marca branca no meu dedão de quando subiu a bolha da cola quente,
a parte mais escura da minha canela de quando escorreguei na escada,
e o pequeno vergão na minha coxa de quando tentei surfar com uma prancha de bico quebrado.
das poucas lembranças que guardo, dessas que as vezes relembro - e sou dessas que passa rápido, que esquece de lembrar e prefere gastar o tempo com as coisas de hoje - estão todas estampadas na minha pele. nessa tatuagem que a vida fez de graça e olhando através delas vejo como se fosse por uma janela, a lembrança passando........e passando.
rabisco e apago.
das lembranças se faz o que quer.
das cicatrizes trato bem, cuido, dou beijo, carinho. o que vejo nelas sou eu mesma, não as lembranças.
essa brincadeira me toma horas...
tenho a vontade de correr, de voltar, de chegar até o final.
onde encontro o final desse rabisco?
apago.
onde vai morar a coragem quando a noite chega?
a noite, a coragem, o espelho, o caminho..
um monte de rabiscos que se juntam na mesma folha branca - que de rabisco em rabisco branca já não é.
quando a borracha e a mão firme descombinam, a folha se machuca e a cicatriz fica fazendo parte do que antes era só branco.
das coisas que eu sempre mais gostei a que eu me lembro mais é a cicatriz.
amo a marca branca no meu dedão de quando subiu a bolha da cola quente,
a parte mais escura da minha canela de quando escorreguei na escada,
e o pequeno vergão na minha coxa de quando tentei surfar com uma prancha de bico quebrado.
das poucas lembranças que guardo, dessas que as vezes relembro - e sou dessas que passa rápido, que esquece de lembrar e prefere gastar o tempo com as coisas de hoje - estão todas estampadas na minha pele. nessa tatuagem que a vida fez de graça e olhando através delas vejo como se fosse por uma janela, a lembrança passando........e passando.
rabisco e apago.
das lembranças se faz o que quer.
das cicatrizes trato bem, cuido, dou beijo, carinho. o que vejo nelas sou eu mesma, não as lembranças.
da rua Mauá
por déis real te dou meu coração
quinze minutos de amor
e derrubo sua tentação
deixo cambalear suas pernas finas
mas passados os quinze minutos, te deixo
sou do mundo
vou ganhar mais déis real
passa o outro pro meu amor ganhar
eu dou
na estação é que deixo meu coração
e todo dia vou buscar
minha mini saia deixa a mostra
me mostra
sou toda exibição
mas quando um homem passa
subo no salto
e sem amor ninguém sai dali
por déis real eu dou
mas quando passa o homem do cheiro doce
de todo dia as 6 da matina
não tenho coração, amor e corpo
não tenho, porque tudo dele vira
me derreto, perco o rumo
sem seu amor não posso ficar
é todo dia as 6 da matina
ele passa e eu fico
guardo bem junto comigo o cheiro doce
que é pra quando for desperdiçar amor
quando vier homem feio
e eu tiver que gostar dos déis real
é pra eu lembrar desse cheiro
esse que sempre passa e não pára
desse que me olha com desdém
mas eu não me importo
não ligo
não choro
logo atrás vem um outro
que acha barato ter meu coração...
é que eu sou prostituta
sou prostituta na rua Mauá
mas amor igual o meu.........
é só déis real
quinze minutos de amor
e derrubo sua tentação
deixo cambalear suas pernas finas
mas passados os quinze minutos, te deixo
sou do mundo
vou ganhar mais déis real
passa o outro pro meu amor ganhar
eu dou
na estação é que deixo meu coração
e todo dia vou buscar
minha mini saia deixa a mostra
me mostra
sou toda exibição
mas quando um homem passa
subo no salto
e sem amor ninguém sai dali
por déis real eu dou
mas quando passa o homem do cheiro doce
de todo dia as 6 da matina
não tenho coração, amor e corpo
não tenho, porque tudo dele vira
me derreto, perco o rumo
sem seu amor não posso ficar
é todo dia as 6 da matina
ele passa e eu fico
guardo bem junto comigo o cheiro doce
que é pra quando for desperdiçar amor
quando vier homem feio
e eu tiver que gostar dos déis real
é pra eu lembrar desse cheiro
esse que sempre passa e não pára
desse que me olha com desdém
mas eu não me importo
não ligo
não choro
logo atrás vem um outro
que acha barato ter meu coração...
é que eu sou prostituta
sou prostituta na rua Mauá
mas amor igual o meu.........
é só déis real
é estranho não correr o risco de tropeçar nas suas pernas, cair dos seus braços, morrer nos seus labios. e é uma tortura por saber que pensamento não é meu, nem corpo, menos ainda alma.
distraio os olhos pra que o coração pense que não fez errado. mas as vezes, quando perco o fio da meada, ele pensa. ele chora. mas eu finjo que não sei.
mas sei. as vezes o caminho deve ser mais leve. tem sido. deixa o passarinho voar e olha bem de longe, com seu binóculo fantastico. imagina o passaro planando sobre o mar, as montanhas. imagina o vento conduzindo suas penas leves, como sua vida.
passarinho tem que voar, mesmo de coraçao apertado.............vazio.
distraio os olhos pra que o coração pense que não fez errado. mas as vezes, quando perco o fio da meada, ele pensa. ele chora. mas eu finjo que não sei.
mas sei. as vezes o caminho deve ser mais leve. tem sido. deixa o passarinho voar e olha bem de longe, com seu binóculo fantastico. imagina o passaro planando sobre o mar, as montanhas. imagina o vento conduzindo suas penas leves, como sua vida.
passarinho tem que voar, mesmo de coraçao apertado.............vazio.
mais uma das poesias bestas da madrugada..
é que quando menos espero posso ver - ao longe - um caminho incerto, mas caminho.
e é de se pensar que passos nunca são certos, errados ou mudos.
minha vista, tantas vezes falha, me fala: é luz. mas só no fim do tunel.
eu nem ligo, da escuridão até gosto..dos olhos enganados, da vista turva, da mão no chão tentando achar rumo.
mas é só quando o corpo todo ruma é que tem graça. o corpo mergulha, abraça e no fim disfarça (mas vergonha não sente).
gosto que o corpo nem seu pode ser. não tem controle nem parada. é estrada dessas sem fim.
corpo doido mergulha e salta e volta em mim.
e é de se pensar que passos nunca são certos, errados ou mudos.
minha vista, tantas vezes falha, me fala: é luz. mas só no fim do tunel.
eu nem ligo, da escuridão até gosto..dos olhos enganados, da vista turva, da mão no chão tentando achar rumo.
mas é só quando o corpo todo ruma é que tem graça. o corpo mergulha, abraça e no fim disfarça (mas vergonha não sente).
gosto que o corpo nem seu pode ser. não tem controle nem parada. é estrada dessas sem fim.
corpo doido mergulha e salta e volta em mim.
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