"há fatos que não se enumeram, lugares que não se descrevem, significações que as palavras não podem vestir"

mergulhando e me perdendo em Cecilia (Meireles)..
perdoamos os tropeços, a falta de idéias, o amor mal correspondido, a comida fria, o ônibus lotado, o ar condicionado, a falta dele, o chiclete sem sabor, o pouco tempo, as muitas tarefas, o abraço curto, o presente esquisito, alface nos dentes, a meia furada, cama mal arrumada, roupa amassada, lápis sem ponta, bilhete único sem carga, celular sem bateria, falta de energia, levar o lixo pra rua, sapatos espalhados pela casa, piada sem graça, atraso de uma hora, privada entupida, dor de barriga. perdoamos até a música mal cantada, a palavra mal dita, a chuva, a longa estrada, cidade sem avenida, a hora mal pontuada. perdoamos a falta de amigos, a saudade, os inimigos. perdoamos a falta de cuidados e o cuidado sem sentido, perdoamos o cabelo mal cortado, a falta de respeito, o tapa na bunda, os resultados perfeitos. perdoamos o melhor e o pior também. perdoamos os pais, os filhos e o cachorro mal criado, o jornal velho, o caderno vazio e o chapéu coco do melhor amigo.

e se não fosse o amor? eu seria a primeira mulher bomba do iraque, o maluco que atirou no cinema, o Osama Bin Laden, Stalin ou Hitler....pensando bem eles também amaram..e de tanto amar mudaram a história do mundo, perdoavam sua própria loucura e destruiam o que não fazia parte dela. amar é questão de focar o amor. ou o perdão.

o que eu amo ou destruo é uma escolha minha.
to indo comprar os explosivos....(hihi)
outra vez resido minhas reflexões em meio as estrelas.
o vento frio, a notória solidão e os estranhos da noite me deixam muda. sempre nostálgica volto, mesmo que tenha sido tudo do mais divertido, do mais fantasioso, estranhamente mágico e precioso.
acabo por me imaginar em situaçoes de risco, de amor intenso, de ódio...novelas que se formam e num sopro ou barulho estranho se desfazem e voam.
para onde? me pergunto.
será mesmo que as idéias são seguras?
nosso único território ainda fora de domínio público, mas descaradamente motivado e manipulado pelo comum, pelo fácil, pelo mastigado. cada castelo que construimos ou mares que navegamos foi estipulado, minuciosamente inserido em nós. e como se salvar?
uma receita fácil pode ajudar:

engula tudo rapidamente, sem mastigar.
espere algum tempo até que seu próprio corpo queira jogar tudo fora.
regurgite por um bom tempo.
engula o que de fato é interessante ao corpo.
jogue tudo o que nao presta para fora, em forma de obra de arte.

tá fácil...né?
depois de dois dias sem comer direito, tive fome.
e fome é sempre sinal de vida? e estava eu fora deste mundo nestes últimos dias?
meus olhos se fecham e o frio consome minha pele.
mas é quando caminho, em meio a esse turbilhão de mundos e sons diversos, que me encontro.
perdida estou entre minha vertigem e a vontade de ter os pés no chão.
e parece que é mesmo quando tudo se aquieta, se aconchega dentro do meu peito, que vem a vida e se joga do alto, desequilibrando o barco em que vínhamos navegando.
o frio segura as lágrimas, mas faz tremer o corpo perdido, corpo que caminha sem rumo por ruas cheias, o coração vazio.

é chegada a hora de aprender que a vida não tem rédias. outra vez........
Titouan Lamazou


"o amor, quando chega, traz arroz e damasco"


que delícia é o mundo!


três saguis-sem-trema vi pela manhã. corriam pelos fios de energia.
fazia sol. eu corria. quase nem vi sagui-sem-trema correr.
não quero ser almoço do urubu que vi lá fora.
não antes de dizer tudo o que penso, rir o quanto quero e ter o coração apertando de saudades.
não posso ser seu alimento antes de ter engolido o mundo e vomitado tudo outra vez.
se tens o céu, porque gostar tanto de vir pra terra comer?
o céu tão desejado por nós. nos mata de inveja e depois nos come!
urubu, sai da minha frente, que o céu já tenho.
vou buscar a minha gente pra zombar do teu bico sujo. que o céu juntos conquistamos.
vai rir em outras bandas, vai esperar comida em outro canto.
aqui a meninada caça e vive na desgraça do desencanto.
vai urubu, solta essas asas, espanta essas nuvens.
deixa de ser esse bicho tonto que não gosta de aventura.
para que a morte esperar?
vai, urubu, vai!
às vezes volto pra casa com a sensação de ter perdido uma parte de mim por aí.
às vezes o que perco é o mau humor, às vezes a tristeza, mas hoje o que deixei por aí foi minha alegria.
pode ser tpm prolongada, falta de amar, despedida ou até medo da segunda-feira.
não dá pra entender. às vezes é assim que acontece.
grande montanha russa do meu melindroso humor.
as linhas brancas impedem ou permitem.
as amarelas pedem que evitem.
os cabos negros levam cores a milhares de televisores e os muitos carros misturam cores sobre o asfalto cinza.
o céu azul de inverno, o verde dos parques e dos faróis que libertam motores a mil por hora.
os all stares vermelhos, roxos, verdes, pretos. os uniformes azuis marinho e os telhados cor de tijolo.
letreiros ambulantes cor de laranja. anúncios pulando de cor em cor frente aos nosso olhos.
e sorrisos brancos, barbas ruivas, loiras, negras...

ah! São Paulo, quem foi que te chamou de cinza?