Os muros da Roque Petroni dizem:

"a verdade é que você mente todo dia"

o mundo das idéias é mais bonito.
quando agente gosta é como se achasse um baú do tesouro e abrisse debaixo do sol sem medo de ficar cego.

poly, a meia.

o outro dia uma meia pequenina se perdeu na passarela do terminal bandeira.
quando passei ela estava chorosa, olhando os pés gigantes em busca de seu doninho. mal sabia a meia que este ainda não havia de saber andar, pois se via em seu tamanho 14 que muito chão ainda lhe faltava.
mas sem pés o que seria da pequena meia? de que vale uma meia se ela não passeia por ai?
pior ainda era saber que sua irmã esquerda tinha continuado o caminho e a essa altura já estaria no quentinho da sua casa e, tendo continuado sozinha, viraria um chaveiro ou uma capa charmosa de celular.
e ela?
só lhe restou chorar e esperar que algum pézinho descalço a desejasse, pois os pés desejam as meias e elas, desde bem pequenas, só o que querem é andar.
mas ela teve sorte. quando nasceu, a mamãe logo lhe deu um nome e escreveu bem grande: Poly. alguém há de lê-la, mas se assim não for, veremos em sua pequena lápide o dolorido escrito "Poly, 3 a 4 meses" e ao seu lado descansarão milhares de lupos, trifis e pukets que, como ocorre sempre no mundo das meias, nunca passarão dos 45.

começando..

Aquelas mãos quentes e fortes me levando de um lado ao outro na ansiosidade nfantil de mostrar o mundo como se fosse para um cego que ganhou de volta a visão me cansavam. Me atordoavam suas palavras loucas e meu silêncio era pura incompreensão passageira. Faziam apenas alguns minutos que eu havia voltado. E tanta mundança houve, que a vertigem já era prevista.

Quando abri os olhos naquela manhã, vi aquele rosto me guardando e aguardando esperançosamente meu retorno. "Eu voltei", queria dizer. Mas tanto tempo sem dizer sequer uma palavra impossibilitou meu desejo. Tentei imprimir um gesto, acariciar seus dedos que seguravam os meus, mas as mãos não obedeciam.
"um homem com uma dor é muito mais elegante."
ir pra 25 de março em dia de chuva é praticamente o mesmo que ter mil amigas "fura-zóio", só que lá os guarda-chuvas o fazem literalmente.
o silêncio dói. havia esquecido como era. primeiro vem o furacão, seguido d'uma tempestade doida que te tira do chão, te derruba outra vez e nunca te devolve ao mesmo lugar. depois vem o silêncio. aquele silêncio que é capaz de se fazer ouvir. silêncio quebrado pelo pranto, pela dor do que já passou. a força que se faz para suportar é a mesma que te deixa no chão.
..................quando o peito sossega e o coração não aperta mais, levantamos, trêmulos pela água gelada - ou pela falta de energia - e tentamos olhar para frente como se o futuro fosse um espelho no qual vemos, cheios de desgosto, nosso próprio rosto ferido.

Piracicaba

Entre cometas que inundaram a Terra de inumeráveis belezas, vulcões que durante um milênio alimentaram com calor as planícies, somos levados ao ar, carregados por bolhas flutuantes de algodão doce e levamos em nosso sublime vôo teorias filosóficas desses Sócrates ou Aristóteles, sem culpa alguma de ter nascido no meio do canavial. Ao imaginarmos um mundo novo, o construímos na dimensão das palavras e podemos tocá-lo, sem muito esforço, assim como se pode fazer com o ar longe do vácuo ou o amor que se tem um pelo outro.
Se nos condicionaram a ter tais memórias, lambo os lábios para me deliciar com elas. Que condição magnífica me designaram! E quando se dá conta de que muito tempo já passou desde que fomos viver no mar, pulamos de felicidade, exaustivos boiadeiros desatolando seus bois no lamaçal. Mas quando a alegria já não suporta e as lágrimas fogem dos olhos, enchemos de saudades um rio onde peixes param para ver, descrentes, as magias de um povo que inventa e desinventa a doidera que é viver. Infinitamente.
quanta inquietude, quanto medo, quanta fé dentro de mim.
impossível prever ou controlar, impossível entender.

é difícil estar aqui sem imaginar como seria acolá.
ai...ai........ai!