De fato, os momentos vão passando como se fossem eternos. As nebulosas cenas, quase passadas em sonho, se mostram reais, insustentavelmente.
Os abraços duram para sempre no sempre que fica preso a cada segundo. Se repete e repete infinitamente na alegria ou na agoniante sensação de eternidade da vida. Imagino a morte como uma grande saudade que o corpo não suporta e se esvai.
SÓ
Serei um veleiro só, esperando ansioso no silêncio de um cais.
As pequenas ondas de mar salgado hão de me causar grande vertigem.
E na nebulosa imagem dos meus sonhos ainda serei só, mas só seguirei viagem se amor em mim ainda houver.
Saudades.
As pequenas ondas de mar salgado hão de me causar grande vertigem.
E na nebulosa imagem dos meus sonhos ainda serei só, mas só seguirei viagem se amor em mim ainda houver.
Saudades.
Praia da Barra - Salvador, BA
Corpos robustos cercados por uma pele lisa e intensamente negra enchem suas areias brancas. Vejo contrastes por todos os lados.
Passa uma ambulante - ela vende saídas, é negra, bem negra - peço para ver uma canga, invento essa aproximação, quero tocar a pele da moça. Me levando para, supostamente, ver e sentir os tecidos e as estampas, mas o tecido que me interessa ali é sua epiderme - tão robusta quanto ela.
Entre uma pergunta e outra rimos por um comentário divertido, percebo minha chance, aproximo rapidamente minha mão, meus dedos e, finalmente, toco seu braço como que para completar o riso. Sinto sua força e delicadeza na pele mais macia que já toquei. Inesquecível!
Driblo suas ofertas, invento não gostar de estampas e cores, ela vai embora. Eu já conquistei o que queria: a sensação, o toque, o momento.
Fico ali tocando meus próprios dedos, sentindo minha estratégia egoísta de aproximação e dispensa.
Olho seus corpos negros. Quando deitam na areia, levantam de outra cor.
Eu sou da cor da areia, não posso ser camaleão.
Passa uma ambulante - ela vende saídas, é negra, bem negra - peço para ver uma canga, invento essa aproximação, quero tocar a pele da moça. Me levando para, supostamente, ver e sentir os tecidos e as estampas, mas o tecido que me interessa ali é sua epiderme - tão robusta quanto ela.
Entre uma pergunta e outra rimos por um comentário divertido, percebo minha chance, aproximo rapidamente minha mão, meus dedos e, finalmente, toco seu braço como que para completar o riso. Sinto sua força e delicadeza na pele mais macia que já toquei. Inesquecível!
Driblo suas ofertas, invento não gostar de estampas e cores, ela vai embora. Eu já conquistei o que queria: a sensação, o toque, o momento.
Fico ali tocando meus próprios dedos, sentindo minha estratégia egoísta de aproximação e dispensa.
Olho seus corpos negros. Quando deitam na areia, levantam de outra cor.
Eu sou da cor da areia, não posso ser camaleão.
Mexico, 2007 - se encaixa perfeitamente no agora...
Se soubesse contá-los, quantos seriam?
A cada pessoa que vejo, um mundo, a cada tempero que provo, um outro, e a cada passo que dou, saio de um, mergulho num novo.
Cada cheiro, cada cor, cada som.
Meus sentidos se apaixonam segundo a segundo e mudo de mundo, sempre por amor.
Tudo que me leva de um mundo a outro é tão frágil, tão dolorido, tão forte e tão sem dor.
O que me transporta, minha ponte de açúcar e papel é a saudade e, numa chuva de lágrimas, se não me cuidar, perco a ponte e me afogo num mundo em que ninguém sabe chegar..
Salvador, BA - 08/fev
Penso em como são bonitas as mulheres daqui. As negras, mulatas e quase brancas, com seus rostos imponentes, sua típica ação cheia de atitude. Intimidadoras, mas cheias de simparia. Que dualidade instigante, contradizente!
Como são belas subindo e descendo as ladeiras em estampas multicoloridas.
Frente a seus cabelos - crespos assumidos, mas muitas vezes bem penteados, trançados, ousados, liso perde completamente a graça. Perto delas sou sem charme, feia, branca aguada. No mundo beleza é o que não falta!
Sinto nas ruas o calor que emana também das pessoas.
Estou mais lenta, penso as vezes com sotaque, ainda me perco pelas ruas e não sei identificar local ou pessoa perigosa.
Sou de longe, não entendo as palavras, a rapidez das frases e o ritmo do povo. Não entendo, mas gosto!
Sou uma pequena aprendiz dessa cidade que, como suas mulheres, vive se contradizendo.
Caos e tranquilidade convivem em meio ao cimento e o mar.
Negras parrudas caminham pela caótica e surpreendentemente tranquila Salvador.
Ps.: mar e saudade são amantes.
Gaua está cercada de água, como eu.
tem dentro dela um vulcão enlouquecido, que bufa com razão. Como eu.
Se o vulcão resolver botar pra fora, Gaua morre. Se parar, Gaua também morre.
O povo vive do calor do vulcão de Gaua.
Como eu, Gaua espera que o vulcão não enfureça, mas sabe que sem ele nada é.
Sou como Gaua.
Buscamos dia-a-dia agradar o vulcão e viver por ele para que nem eu, nem Gaua viremos cinzas e fumaça.
rabisco e apago.
essa brincadeira me toma horas...
tenho a vontade de correr, de voltar, de chegar até o final.
onde encontro o final desse rabisco?
apago.
onde vai morar a coragem quando a noite chega?
a noite, a coragem, o espelho, o caminho..
um monte de rabiscos que se juntam na mesma folha branca - que de rabisco em rabisco branca já não é.
quando a borracha e a mão firme descombinam, a folha se machuca e a cicatriz fica fazendo parte do que antes era só branco.
das coisas que eu sempre mais gostei a que eu me lembro mais é a cicatriz.
amo a marca branca no meu dedão de quando subiu a bolha da cola quente,
a parte mais escura da minha canela de quando escorreguei na escada,
e o pequeno vergão na minha coxa de quando tentei surfar com uma prancha de bico quebrado.
das poucas lembranças que guardo, dessas que as vezes relembro - e sou dessas que passa rápido, que esquece de lembrar e prefere gastar o tempo com as coisas de hoje - estão todas estampadas na minha pele. nessa tatuagem que a vida fez de graça e olhando através delas vejo como se fosse por uma janela, a lembrança passando........e passando.
rabisco e apago.
das lembranças se faz o que quer.
das cicatrizes trato bem, cuido, dou beijo, carinho. o que vejo nelas sou eu mesma, não as lembranças.
essa brincadeira me toma horas...
tenho a vontade de correr, de voltar, de chegar até o final.
onde encontro o final desse rabisco?
apago.
onde vai morar a coragem quando a noite chega?
a noite, a coragem, o espelho, o caminho..
um monte de rabiscos que se juntam na mesma folha branca - que de rabisco em rabisco branca já não é.
quando a borracha e a mão firme descombinam, a folha se machuca e a cicatriz fica fazendo parte do que antes era só branco.
das coisas que eu sempre mais gostei a que eu me lembro mais é a cicatriz.
amo a marca branca no meu dedão de quando subiu a bolha da cola quente,
a parte mais escura da minha canela de quando escorreguei na escada,
e o pequeno vergão na minha coxa de quando tentei surfar com uma prancha de bico quebrado.
das poucas lembranças que guardo, dessas que as vezes relembro - e sou dessas que passa rápido, que esquece de lembrar e prefere gastar o tempo com as coisas de hoje - estão todas estampadas na minha pele. nessa tatuagem que a vida fez de graça e olhando através delas vejo como se fosse por uma janela, a lembrança passando........e passando.
rabisco e apago.
das lembranças se faz o que quer.
das cicatrizes trato bem, cuido, dou beijo, carinho. o que vejo nelas sou eu mesma, não as lembranças.
da rua Mauá
por déis real te dou meu coração
quinze minutos de amor
e derrubo sua tentação
deixo cambalear suas pernas finas
mas passados os quinze minutos, te deixo
sou do mundo
vou ganhar mais déis real
passa o outro pro meu amor ganhar
eu dou
na estação é que deixo meu coração
e todo dia vou buscar
minha mini saia deixa a mostra
me mostra
sou toda exibição
mas quando um homem passa
subo no salto
e sem amor ninguém sai dali
por déis real eu dou
mas quando passa o homem do cheiro doce
de todo dia as 6 da matina
não tenho coração, amor e corpo
não tenho, porque tudo dele vira
me derreto, perco o rumo
sem seu amor não posso ficar
é todo dia as 6 da matina
ele passa e eu fico
guardo bem junto comigo o cheiro doce
que é pra quando for desperdiçar amor
quando vier homem feio
e eu tiver que gostar dos déis real
é pra eu lembrar desse cheiro
esse que sempre passa e não pára
desse que me olha com desdém
mas eu não me importo
não ligo
não choro
logo atrás vem um outro
que acha barato ter meu coração...
é que eu sou prostituta
sou prostituta na rua Mauá
mas amor igual o meu.........
é só déis real
quinze minutos de amor
e derrubo sua tentação
deixo cambalear suas pernas finas
mas passados os quinze minutos, te deixo
sou do mundo
vou ganhar mais déis real
passa o outro pro meu amor ganhar
eu dou
na estação é que deixo meu coração
e todo dia vou buscar
minha mini saia deixa a mostra
me mostra
sou toda exibição
mas quando um homem passa
subo no salto
e sem amor ninguém sai dali
por déis real eu dou
mas quando passa o homem do cheiro doce
de todo dia as 6 da matina
não tenho coração, amor e corpo
não tenho, porque tudo dele vira
me derreto, perco o rumo
sem seu amor não posso ficar
é todo dia as 6 da matina
ele passa e eu fico
guardo bem junto comigo o cheiro doce
que é pra quando for desperdiçar amor
quando vier homem feio
e eu tiver que gostar dos déis real
é pra eu lembrar desse cheiro
esse que sempre passa e não pára
desse que me olha com desdém
mas eu não me importo
não ligo
não choro
logo atrás vem um outro
que acha barato ter meu coração...
é que eu sou prostituta
sou prostituta na rua Mauá
mas amor igual o meu.........
é só déis real
é estranho não correr o risco de tropeçar nas suas pernas, cair dos seus braços, morrer nos seus labios. e é uma tortura por saber que pensamento não é meu, nem corpo, menos ainda alma.
distraio os olhos pra que o coração pense que não fez errado. mas as vezes, quando perco o fio da meada, ele pensa. ele chora. mas eu finjo que não sei.
mas sei. as vezes o caminho deve ser mais leve. tem sido. deixa o passarinho voar e olha bem de longe, com seu binóculo fantastico. imagina o passaro planando sobre o mar, as montanhas. imagina o vento conduzindo suas penas leves, como sua vida.
passarinho tem que voar, mesmo de coraçao apertado.............vazio.
distraio os olhos pra que o coração pense que não fez errado. mas as vezes, quando perco o fio da meada, ele pensa. ele chora. mas eu finjo que não sei.
mas sei. as vezes o caminho deve ser mais leve. tem sido. deixa o passarinho voar e olha bem de longe, com seu binóculo fantastico. imagina o passaro planando sobre o mar, as montanhas. imagina o vento conduzindo suas penas leves, como sua vida.
passarinho tem que voar, mesmo de coraçao apertado.............vazio.
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