há tanto ainda por vir. porvir de devir. o que vai virar? o que posso ser? o que pode ser?
a parede de vidro se quebrou. os cacos enchem meus olhos de lágrimas, ferem meu coração, fincam-se sobre minhas memórias.
ser virtual é ser?
o que é real, se existe no virtual. no virtual acaba, no real ainda pode existir.
é sempre a mesma história de saudade, de distância, de esperança.
quantos quilômetros podem existir entre os abraços?



sem fim.
as rimas perdidas da minha mente flutuante já estão cansadas de rimar.
amedronta o fato da poesia fugir. de endurecer. de perder a leveza.

nem só de pão vive o homem, mas de arte, musica, palavras, amor e abraço.


procurando a esquina onde me perdi.
se alguém achar, tem recompensa.



a cidade me engoliu.

entre percepções têxteis - a velha história de que corpo sempre está vestido na cidade, experiências corporais, trajetos sem destino. ela engoliu.
sua garganta trêmula, seu vento sujo. ela me devora lentamente, uma cobra que come um boi e leva tempo pra digerir tudo. foi assim. estou ali sendo digerida. ainda. nem percebi.

primeiro eu estava sentada em um banquinho de plástico numa passarela.
mulheres lindas, roupas de seda, cabelos impecáveis, salto alto, maquiagem.
depois a passarela chacoalha ao som dos chinelos gastos, da pressa das multidões que passam. o som dos carros lá em baixo. e 'olha o chip, 5 reais!'. ambulantes ambulam. eu insisto.

a cidade me engoliu.

um garoto dança breake, o outro canta funk e a passarela volta a ser espetáculo.
o barulho, os corpos passando, a tremedeira da base. tudo vira cenário.
as mulheres de salto viram meninos de chinelo.

e eu lá dentro da cidade. dentro de mim. não paro de pensar, de dar voltas em cima do banquinho.
insisto.
ela me engole.
eu fico.

passarelas. todas iguais. (?)

Equilibro meu corpo sobre uma linha fina, pendurada bem alto entre dois prédios. meus pés se esforçam para que a falta de estabilidade não os faça perder a linha.
de um lado vejo pessoas chegando. do outro, vão indo.
e eu caminho sobre essa linha fina. me equilibro, tento ser mais leve. não quero que a linha se arrebente.
do lado dos que vão embora vejo sombras levando mochilas pesadas, mas muito fáceis de carregar. do lado dos que chegam, tem sorriso, abraço e alegria por ainda ter muito tempo pra encher a bagagem vazia.
eu sou caipira porque, se prestar atenção, tenho cheiro de terra, cachaça e restilo.

Às vezes é o lugar do sem dono, do abandono diário, da falta de tato. Às vezes o lugar da surpresa, do toque profundo, da descoberta de portais entre lugares, entre pessoas. Sempre é diferente.

DESPEDIDA

De fato, os momentos vão passando como se fossem eternos. As nebulosas cenas, quase passadas em sonho, se mostram reais, insustentavelmente.
Os abraços duram para sempre no sempre que fica preso a cada segundo. Se repete e repete infinitamente na alegria ou na agoniante sensação de eternidade da vida. Imagino a morte como uma grande saudade que o corpo não suporta e se esvai.

SÓ

Serei um veleiro só, esperando ansioso no silêncio de um cais.
As pequenas ondas de mar salgado hão de me causar grande vertigem.
E na nebulosa imagem dos meus sonhos ainda serei só, mas só seguirei viagem se amor em mim ainda houver.


Saudades.

Praia da Barra - Salvador, BA

Corpos robustos cercados por uma pele lisa e intensamente negra enchem suas areias brancas. Vejo contrastes por todos os lados.
Passa uma ambulante - ela vende saídas, é negra, bem negra - peço para ver uma canga, invento essa aproximação, quero tocar a pele da moça. Me levando para, supostamente, ver e sentir os tecidos e as estampas, mas o tecido que me interessa ali é sua epiderme - tão robusta quanto ela.
Entre uma pergunta e outra rimos por um comentário divertido, percebo minha chance, aproximo rapidamente minha mão, meus dedos e, finalmente, toco seu braço como que para completar o riso. Sinto sua força e delicadeza na pele mais macia que já toquei. Inesquecível!
Driblo suas ofertas, invento não gostar de estampas e cores, ela vai embora. Eu já conquistei o que queria: a sensação, o toque, o momento.
Fico ali tocando meus próprios dedos, sentindo minha estratégia egoísta de aproximação e dispensa.

Olho seus corpos negros. Quando deitam na areia, levantam de outra cor.
Eu sou da cor da areia, não posso ser camaleão.

Mexico, 2007 - se encaixa perfeitamente no agora...

Se soubesse contá-los, quantos seriam?
A cada pessoa que vejo, um mundo, a cada tempero que provo, um outro, e a cada passo que dou, saio de um, mergulho num novo.

Cada cheiro, cada cor, cada som.
Meus sentidos se apaixonam segundo a segundo e mudo de mundo, sempre por amor.
Tudo que me leva de um mundo a outro é tão frágil, tão dolorido, tão forte e tão sem dor.

O que me transporta, minha ponte de açúcar e papel é a saudade e, numa chuva de lágrimas, se não me cuidar, perco a ponte e me afogo num mundo em que ninguém sabe chegar..