dos devires: devir-pássaro

das dores das asas que nascem, dos movimentos, da falta de lugar.
quando é que pássaro decide fazer ninho?
fecunda sementes, planta árvores....levanta vôo.
não terá saudade das árvores o passarinho?
deve haver grande dor em ser pássaro. deve? há.
afirmo.


cidade loba

suas veias cinzas palpitam, seu corpo forte trepida.
caminhar por suas ruas é o desafio. entender a lógica. a falta dela.
respirar seu ar envenenado.

o corpo frágil não enfrenta, corrói, desilude, chora.
tem que ser tarzan para viver na selva.
saber quais são as copas seguras, os solos onde se pode pisar.
tem que ser treinador de bicho selvagem.
a cidade, ela é arredia.
mas gosta de ser conquistada.
e quando a inesperada conquista acontece, ela desabrocha feito flor em primavera.
sai da toca feito loba em noite de lua cheia.

se derrete, se entrega.....uiva.
há tanto ainda por vir. porvir de devir. o que vai virar? o que posso ser? o que pode ser?
a parede de vidro se quebrou. os cacos enchem meus olhos de lágrimas, ferem meu coração, fincam-se sobre minhas memórias.
ser virtual é ser?
o que é real, se existe no virtual. no virtual acaba, no real ainda pode existir.
é sempre a mesma história de saudade, de distância, de esperança.
quantos quilômetros podem existir entre os abraços?



sem fim.
as rimas perdidas da minha mente flutuante já estão cansadas de rimar.
amedronta o fato da poesia fugir. de endurecer. de perder a leveza.

nem só de pão vive o homem, mas de arte, musica, palavras, amor e abraço.


procurando a esquina onde me perdi.
se alguém achar, tem recompensa.



a cidade me engoliu.

entre percepções têxteis - a velha história de que corpo sempre está vestido na cidade, experiências corporais, trajetos sem destino. ela engoliu.
sua garganta trêmula, seu vento sujo. ela me devora lentamente, uma cobra que come um boi e leva tempo pra digerir tudo. foi assim. estou ali sendo digerida. ainda. nem percebi.

primeiro eu estava sentada em um banquinho de plástico numa passarela.
mulheres lindas, roupas de seda, cabelos impecáveis, salto alto, maquiagem.
depois a passarela chacoalha ao som dos chinelos gastos, da pressa das multidões que passam. o som dos carros lá em baixo. e 'olha o chip, 5 reais!'. ambulantes ambulam. eu insisto.

a cidade me engoliu.

um garoto dança breake, o outro canta funk e a passarela volta a ser espetáculo.
o barulho, os corpos passando, a tremedeira da base. tudo vira cenário.
as mulheres de salto viram meninos de chinelo.

e eu lá dentro da cidade. dentro de mim. não paro de pensar, de dar voltas em cima do banquinho.
insisto.
ela me engole.
eu fico.

passarelas. todas iguais. (?)

Equilibro meu corpo sobre uma linha fina, pendurada bem alto entre dois prédios. meus pés se esforçam para que a falta de estabilidade não os faça perder a linha.
de um lado vejo pessoas chegando. do outro, vão indo.
e eu caminho sobre essa linha fina. me equilibro, tento ser mais leve. não quero que a linha se arrebente.
do lado dos que vão embora vejo sombras levando mochilas pesadas, mas muito fáceis de carregar. do lado dos que chegam, tem sorriso, abraço e alegria por ainda ter muito tempo pra encher a bagagem vazia.
eu sou caipira porque, se prestar atenção, tenho cheiro de terra, cachaça e restilo.

Às vezes é o lugar do sem dono, do abandono diário, da falta de tato. Às vezes o lugar da surpresa, do toque profundo, da descoberta de portais entre lugares, entre pessoas. Sempre é diferente.

DESPEDIDA

De fato, os momentos vão passando como se fossem eternos. As nebulosas cenas, quase passadas em sonho, se mostram reais, insustentavelmente.
Os abraços duram para sempre no sempre que fica preso a cada segundo. Se repete e repete infinitamente na alegria ou na agoniante sensação de eternidade da vida. Imagino a morte como uma grande saudade que o corpo não suporta e se esvai.

Serei um veleiro só, esperando ansioso no silêncio de um cais.
As pequenas ondas de mar salgado hão de me causar grande vertigem.
E na nebulosa imagem dos meus sonhos ainda serei só, mas só seguirei viagem se amor em mim ainda houver.


Saudades.