a arte há de salvar.
um abismo sob meus pés. vou caindo.
das relações, fios emaranhados, impossível desatar(?).
   os nós sempre ficam, ao desatar se ferem os fios.

o nó na garganta
o nó no estômago
o nó na cabeça
(os) nós na cama

nós.



desatam?                             



nós de marinheiro navegam e ainda assim são nós.
nos postes frios de SP Pai Joaquim cola seus cartazes, eles dizem:

"trago pessoa amada em 7 dias,
nem precisa ir pra Bahia"



será?
explode por dentro, primeiro.
o corpo não contém, transborda. sem bordas fica o corpo.
vaza.
não cabe nas horas do dia, nas respirações ou no meditar de fim de tarde.
quando se mergulha o corpo, ele não cabe.
não cabe em si. em mim. em você. ou nele.
não cabe na nossa varanda, na minha cama ou na areia da praia.
nem na insônia que assola noites como essa.
fica sem lugar.
só tem lugar o que nele cabe. se não cabe, não tem.
se não tem. vai embora. se deixa partir a parte que sobra. ou se engole. bota pra dentro. empapuça o coração.

"vive y deja morrir"

exercício do amor im-próprio.
seguindo.


dos devires: devir-pássaro

das dores das asas que nascem, dos movimentos, da falta de lugar.
quando é que pássaro decide fazer ninho?
fecunda sementes, planta árvores....levanta vôo.
não terá saudade das árvores o passarinho?
deve haver grande dor em ser pássaro. deve? há.
afirmo.


cidade loba

suas veias cinzas palpitam, seu corpo forte trepida.
caminhar por suas ruas é o desafio. entender a lógica. a falta dela.
respirar seu ar envenenado.

o corpo frágil não enfrenta, corrói, desilude, chora.
tem que ser tarzan para viver na selva.
saber quais são as copas seguras, os solos onde se pode pisar.
tem que ser treinador de bicho selvagem.
a cidade, ela é arredia.
mas gosta de ser conquistada.
e quando a inesperada conquista acontece, ela desabrocha feito flor em primavera.
sai da toca feito loba em noite de lua cheia.

se derrete, se entrega.....uiva.
há tanto ainda por vir. porvir de devir. o que vai virar? o que posso ser? o que pode ser?
a parede de vidro se quebrou. os cacos enchem meus olhos de lágrimas, ferem meu coração, fincam-se sobre minhas memórias.
ser virtual é ser?
o que é real, se existe no virtual. no virtual acaba, no real ainda pode existir.
é sempre a mesma história de saudade, de distância, de esperança.
quantos quilômetros podem existir entre os abraços?



sem fim.
as rimas perdidas da minha mente flutuante já estão cansadas de rimar.
amedronta o fato da poesia fugir. de endurecer. de perder a leveza.

nem só de pão vive o homem, mas de arte, musica, palavras, amor e abraço.


procurando a esquina onde me perdi.
se alguém achar, tem recompensa.



a cidade me engoliu.

entre percepções têxteis - a velha história de que corpo sempre está vestido na cidade, experiências corporais, trajetos sem destino. ela engoliu.
sua garganta trêmula, seu vento sujo. ela me devora lentamente, uma cobra que come um boi e leva tempo pra digerir tudo. foi assim. estou ali sendo digerida. ainda. nem percebi.

primeiro eu estava sentada em um banquinho de plástico numa passarela.
mulheres lindas, roupas de seda, cabelos impecáveis, salto alto, maquiagem.
depois a passarela chacoalha ao som dos chinelos gastos, da pressa das multidões que passam. o som dos carros lá em baixo. e 'olha o chip, 5 reais!'. ambulantes ambulam. eu insisto.

a cidade me engoliu.

um garoto dança breake, o outro canta funk e a passarela volta a ser espetáculo.
o barulho, os corpos passando, a tremedeira da base. tudo vira cenário.
as mulheres de salto viram meninos de chinelo.

e eu lá dentro da cidade. dentro de mim. não paro de pensar, de dar voltas em cima do banquinho.
insisto.
ela me engole.
eu fico.

passarelas. todas iguais. (?)