estar no interior é buscar o interior?

hoje na feira tinha "melão graudão".
"mai que delicadeza cê é".
e na padaria o pãozinho é "filão".


os encontros dessa cidade onde a avenida São João não cruza a Ipiranga, são tímidos.

por isso os amigos rapidamente vão se pendurando pelas paredes da nossa casa, espiam pela janela, dormem sobre a escrivaninha, sobem pelas prateleiras, sentam ao nosso lado na rede.....parecem querer salvar-nos dessa timidez, parecem querer dizer que sigamos, que o rumo é certo, que estão com a gente.
não largam nossa mão.
todos os dias eles respiram junto, olham o que vejo, seguram minha alma, apoiam meu coração.

amor a gente sente de longe. ainda bem!

















a euforia que toma a alma frente aos espasmos do corpo dormido.
uma mão sob a cabeça a outra sobre os quadris.
o descanso da respiração, o descaso dos pés que chutam, aflitos pés reflexivos.
um sono leve, um corpo tenso.
por onde vagueiam esses sonhos? esses segredos do sono, da completude do descanso.
a mente anda por ai, as mãos não se movem, o rosto relaxa.

você dorme.
a nossa cozinha cheira manga.
deve ter amadurecido durante a noite passada, quando já estava um pouco mais quente que a outra, a antepassada. manga tem cheiro doce, deixa a cozinha gostosa.

cheiro a gente também come.

costurar é um exercício de ser gente.

veja bem, você está fazendo a última costura daquela roupa complicada, termina, tira a peça da máquina com alegria e quando vai checar o trabalho feito, percebe que a linha da bobina acabou no meio da costura.
é.
ai você para.
respira fundo e vai encher a dita cuja pra terminar aquele restinho de costura.
restinho de amor. restinho de ninho. restinho de sonho. restinho de saudade. restinho de alegria. restinho de tristeza. sempre sobra algum fiozinho pra arrematar. dá o nó.




negócio é que nesse deserto caipira quando vem tempestade, vento destelha as casas. chove, inunda tudo.
e é assim por alguns dias. até que volta a ser deserto.
o ar parado, o calor, a sequidão. mas continua tudo bonito.
o verde ainda é verde. os pássaros alaranjados.
é a calmaria mais linda de se ver.
eis que começo a pensar que tudo faz sentido.
há deserto em mim.
e quando bate a ventania, destelho e procuro rumo com o vento.
agora, olhando assim de perto esse meu deserto tempestivo, me parece, assim de leve, que vem chegando a calmaria.
benzadeus! já escuto a viola caipira.


vamos combinar assim:
eu fico aqui à espera, quietinha dentro de mim. fico sem caber no corpo que vive à deriva. fico estagnada dentro de todo o movimento dele. fico esperando que a sua saudade chegue, que chegue com um recado até mim. qualquer palavra, qualquer suspiro, qualquer 'ai' vai me fazer mais feliz nesse silêncio sem fim da imensidão que me habita. eu espero, o corpo vai. estou de olhos fechados e coração aberto.

vem logo.
"assovia o vento dentro de mim.
Estou despido. dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara."

galeano
a arte há de salvar.
um abismo sob meus pés. vou caindo.
das relações, fios emaranhados, impossível desatar(?).
   os nós sempre ficam, ao desatar se ferem os fios.

o nó na garganta
o nó no estômago
o nó na cabeça
(os) nós na cama

nós.



desatam?                             



nós de marinheiro navegam e ainda assim são nós.