Ilmª Rainha dos baixinhos,

sinto ter que ir contra suas palavras!
inúmeras vezes te vi pulando ao som de Ilariê, ao lado de suas paquitas e paquitos que chacoalhavam suas louras madeixas num cenário imensamente colorido. e, não me envergonho ao assumir que também ja pulei o Ilariê, uma pena não ter a companhia dos lourinhos.
posso contar mais. já fiz pocket shows para a família, no meio do almoço de domingo usando "seu" microfone e uma minissaia bastante curta para meus 5 anos. é, já causei indigestão por toda família! mas não me leve a mal, não critico seu trabalho, apenas os covers caseiros espalhados pelo país e, claro, me incluo neles.
aliás, participei das suas muitas mudanças de público, vi sua barriga crescer exibida pelas blusas que algum de seus figurinistas ou stylists garimpou pelo Bom Retiro e fez virar moda. perdi a conta de quantas barrigas vi exibidas pelas ruas da minha cidade.
não nego que me desesperei ao ver um de seus cenários pegando fogo, afinal, imagina como não se armaram aqueles que tocavam sua música ao contrário procurando palavras de outro mundo. o fogo é do inferno, querida Rainha.
sofri ao perceber que a Sacha, mesmo sendo uma fofura (como todas as crianças desse mundo), não tinha puxado a beleza estonteante de seus pais e que ainda levava o nome da cachorra do meu vizinho!
mas te perdoo por essa gafe, já que me ensinou o significado das cores do arco-iris e a decorar o abecedário com palavras fofuchas. além, é claro, de me estimular a combater o mal. pena que não me contou que meu cachorro não precisava ir pro microondas por ter feito xixi no meu quarto (aquele cachorrinho mal!)...
neste momento acho que já posso chegar ao ponto crucial dessa carta. "querer é poder". você disse, Rainha. e eu acreditei. quis muito uma bicicleta no natal, mas não pude. a casa da Barbie no dia das crianças e não veio. um videogame no meu aniversário e cadê? você devia ter me contado que isso só valia para coisas de gente grande e que ainda querendo muito é preciso fazer algumas coisinhas para que se possa de verdade. é, talvez você também não soubesse, né?
eu te conto agora que para poder de verdade você tem que aprender inglês, espanhol e uma outra lingua qualquer, além de todo o pacote Office, Corel Draw e os Adobes...ah! e se souber fazer as mesmas coisas nos computadores da maçã talvez seu "poder" chegue mais rápido! é bom também ter uma boa formação superior de no mínimo quatro anos aprovados pelo MEC e alguma experiência profissional. não posso esquecer de te contar também que se você conhecer alguém influente as coisas podem ser muito mais fáceis. e, sendo a Rainha que é, acredito que não tenha esse tipo de problema.
é, acho que querer cansa. mas poder enche a pança. talvez se tivesses feito uma música explicando bem tudo isso a gente teria se preparado bem melhor.
te perdoo outra vez, minha Rainha, pois não precisa vestibular, dinâmica de grupo ou currículo pra ser Rainha, né?
um beijo pro meu pai, pra minha mãe e outro pra você,
uma baixinha (mesmo e ainda)

"Ah! Sempre que eu vejo um tubarão baleia eu choro!"

Enquanto uns choram soterrados, tentando ter fé na própria fé, outros mergulham no golfo do México e choram emocionados, sem lembrar que a fé existe.
mais uma dessas noites de insônia.
por minutos deixei passar a bebedeira que embala o sono e despertei para uma noite inteira.
intensa.

pensamentos desprendidos e desmedidos. são balões voando e subindo, subindo, subindo..
ou o algodão doce do senhor da rua do porto que mais parecia uma nuvem amarrada a um palito.

a magia da vida está escondida em pequenas coisas..e eu a procuro como as crianças procuram os ovos na páscoa. ou espiando por trás das cortinas, como quando esperava, nas noites de natal, que o papai noel aparecesse, dormindo de olhos semi abertos (até hoje o faço, assumo, todos os dias. olhos semi abertos são questao de segurança....ou cansaço..). nesse caso, as cortinas eram (são) meus próprios olhos, pálpebras pesadas que suporto carregar dia pós dia.

é que querer ter os olhos abertos, atentos, à caça, é cansativo e não pode passar de 24hrs.........

a sede quase sempre é equivalente ao tempo que consegue levar os olhos abertos. ela é alimentada pelas coisas que se ve, se sente e se toca. a sede passa dos limites físicos. faz delirar. imaginar mundos e fundos.......

a sede faz o sono acabar..






e algumas palavras tem o poder da cura...acabou a insônia, dormir é todo o detalhe da vida que quero espiar agora.

de um outro mundo que parece o meu.

sem correr
tiago yonamine
ilustração: marina faria
*mais em: http://www.fragmentos.bz/




não temos pressa. não procuramos simetria nas nossas vidas tortas. estamos de folga dos suspiros ofegantes. das cartas desesperadas. e dos telefonemas a meia-noite. não esperamos respostas para os sms’s sem perguntas. não falamos alto. não pedimos atenção. não trocamos flores, elogios e bem-me-queres. degustamos o tempo em seus compassos. não pulamos as vírgulas. os pontos. os travessões. não alimentamos grandes expectativas. nem cachorros abandonados. não planejamos o jantar. nem o final de semana. nem o nome de nossos filhos. não quero saber se teremos filhos. não esperamos que venham num cortejo de borboletas amarelas. estamos casulo. metamorfoseando. não tenho lindos sonhos que desejaria estar para sempre. não me lembro ao certo quando te conheci. nem se eu queria conhecer alguém naquele tempo. mas isso não importa nesse momento.

sem correr. só preciso de alguns abraços queridos, a companhia suave, bate-papos que me façam sorrir, algum nível de embriaguez e a sincronicidade: eu e você não acontecemos por uma relação causal, mas por uma relação de significado. que ainda estamos trabalhando.

rimas tontas.





Vejo os olhos perdidos se encontrarem e novos caminhos seguirem os pés pequeninos.
Em tribos se perdem seus sorrisos e pelas estradas vão suas rodas carecas, carregando como se fosse apenas uma bagagem, toda a vida que já conquistou.
O coração, que tem espaço pra muito, já não é tão puro, pois a vida maltratou. Mas o caráter, tão lindo quanto as pinturas em seu corpo, anda sempre limpo e pronto pro novo amor.
E ama tanto que esgota os vilarejos, as mulheres, os homens, as crianças e o mar. E por isso é itinerante, é que um coração amante sofre quando não sai do lugar.
Seu amor é como uma pipa, que agarrada por um fio, às vezes perde o controle e ninguém sabe onde vai parar.
Te vejo a andar pelas ruas, o sorriso sempre a postos. Se atrasado, voltaria pra carregar as sacolas da velhinha. E se perdesse o emprego, sairia feliz pelos becos na tentativa do lamento comemorar.
Se ninguém pode prever o destino, ele é você quem faz. E faz melhor que muitos e poucos. E deixa os tontos só a vagar.....

Ave certeira.

Quero o abraço mais forte, o pé descalço, a água da cachoeira, o sol mais ardente do mundo.
Eu correndo e ele tinha um relógio como o meu. Mas ao avesso tinha os pés descalços, as roupas rotas, o rosto gasto. Tinha também vendedor de Yakult, que imaginei vindo lá do interior nos anos da minha infância. Dois moleques brigavam pela rua. Um queria latas, o outro protegia a casa.
A rua.
e sobre os fios brancos: já são 8....será melhor parar de contar?

O mamão e a vovó.

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Quando era menor, minha avó ia a feira com seu carrinho de metal. Às vezes eu a acompanhava com muito medo de me machucar naquele carrinho. Ir a feira era cansativo. Quando chegávamos, logo vinha o cheiro do peixe fresco, seguido pelo dos queijos. Eu gostava de olhar os vidros de conserva. Era pimenta, doce caseiro e meu reflexo em todos eles. O que cansava mesmo eram os encontros da vovó. Sempre vinha alguém falar com ela, perguntar da vida, contar os casos e fofocas e isso não podia levar menos de meia hora. Como suportar ficar parada em meio as mangas e laranjas sem poder fazer nada divertido o bastante para me distrair por meia hora? Era chato. Mas a lembrança é a mais gostosa do mundo.
Gosto de pensar que quando chegávamos em casa e a vovó ia abrir o mamão, eu ficava louca e vidrada com a estrela que aparecia no meio dele. Não entendia como podia uma fruta transportar tão linda forma.
Era assim toda quarta-feira que passava as tardes com a vovó. Erámos companheiras e nossa paciência ia até a feira e voltava, suportava treinos de tabuada, redações, histórias antigas e receitas gostosas. A vovó me ensinou a cumprir as promessas, a chegar na hora certa, a perdoar, lutar e a procurar estrelas dentro dos mamões.

Do meu dia de hoje...

São Paulo, BR, setembro de 2009.

A rosa.

A caminhonete vermelha levava um homem sozinho. Ao parar no farol se depara com um vendedor de rosas e não pensa duas vezes antes de comprar uma dúzia toda dos botões vermelhos. O vendedor lhe diz o preço e o galanteador tenta sempre pechinchar. Não consegue.
De dentro do ônibus meia dúzia de homens observa o acontecido.
O homem acaba comprando as rosas pelo preço que o vendedor impôs e leva as rosas aconchegadas no banco ao lado.
A meia dúzia de passageiros vibra ao imaginar uma noite de louco amor depois de um pedido de casamento ou perdão.
O homem, tolo completo, quis comprar barato sem perceber que, além das rosas, levava consigo a torcida de muitos outros homens que invejavam imensamente seu gesto de amor. Foi embora com o carro cheio.



(me questiono porque as histórias que tenho de rosas sempre carregam homens de boas intenções e bolsos vazios)